Poema escrito em 1988.O velho de barbas longascaminhava só,ele me acena, prossegue,carregavauma surrada mochila,se distanciavamais e mais,ele erao seu próprio mundo,sem leis e comandantesdesfrutava a liberdade,seus olhos eram faróisiluminando o deserto caminho.A poeira da estradalevou o velho magode minha visão,deu vontade de ir junto,pensei em muitas coisas,fui fraco,só muitos anos depoisfui informado (pelo destino)que o velho era a felicidadematerializadaque por muitos anos procurei.
Esse poema foi escritoquando eu tinha 13 anos.Mãe,sinto saudade do seu ventre,talvez por necessidadedo silêncio que me envolvia,dentro de vocêo vazio era imenso pra mime agora nada sou, perdido,nesse grandioso planeta.O mundome arrancou de você,deixando-me desprotegidonesse deserto de concreto e aço,apenas com a solidãocomo diáriae fiel companheira,já não suportoandar pelas ruasem busca de novos sorrisos,de novos olhares,novos rostos.Mãe,eles não me compreendem,privam minhas necessidadesde falar, sonhar,até quandoesperarei, mãeque parem pra me ouvir,que me ofertem paz e floresao invés de notícias e imagensde sangue, holocausto e fuzis.
Nos assaltam, esfolam,aumentam taxas, aluguéis,alimentos, vestuário,custo-de-vida, e nós, nada,permanecemos mudos.Aumentam dívidas, nos empobrecemcada vez mais,nos fazem sofrer de agonia,castram nossos sonhos,amordaçam nossa voz,e nós, nada,permanecemos mudos.Caçam nossos direitos,não aceitam nossos protestos,fazem acordose não nos consultam,exportam quase tudoe ficamosde fora dos lucros,colocam armadilhaspor onde passamos e sempreestamos caindo nelas,e nós, nada,permanecemos mudos.Exilamnossos sonhos de independência,nos ameaçam com cassetetes,dispersam movimentos,reuniões,nos querem amedrontados,fracos,acabam conosco aos poucos,e nós, covardes,morremos omissos.
Poema escrito em 1997.Eu ouvi vocêbalbuciar o meu nome,em solavancos a sua cabeçaameaçava explodirpelas dores do acidente,seu rosto irreconhecíveljamais abandonouos meus pensamentos.Naquele instantedesterrei minha vontadede continuar existindo.Eu ouvi a sua vozdizer que me amavae logo depoisseu irremediável silêncio.A mortenão me deu tempode dizerque eu também lhe amava.A partir daíchoreisobre o seu corpo mortoe corri enlouquecidopelo corredor daquele frio hospitalpedindoo abraço da conformação.
Eu soua lágrima do menor aflitoa dor do militante feridoa paz que nunca chegaa riqueza do indigenteo sorriso sincero da gestantea marcha dos bravos grevistas.Eu soua revolta incontida do povoa fumaça que embaça os olhoso ébrioque se perdeu por aío princípioda metade do fima fúriairrefreável do guerrilheiroa nuvemque impede a luz.Eu souo que seus olhos não conseguem enxergaro que seu coração não senteo quesua mão não alcança.Eu souo que muitas vezesnão se encontra em mim.
PARA LENNONPor aquinada mudou, poetaa violênciacresceu assustadoramente,a pazcom o passar dos diasvai se distanciandodo coração dos humanos.As baionetas diariamentetravam duelos,os podres homens do poderestão tentando acabarcom a espécie humana,eles só pensam em tiros,em violência gratuita,em corrupção e suborno,e a gente só queriaque dessem uma chance à PAZ.
Acendo um cigarro,escrevo (mais) um poema,telefono pra alguém.Consumo uma garrafa de vinho,é frio o dia,te busco,permaneço só.Te sintoouvindo Bob Dylan,estás longe.Nada tenhopra lhe presentear,apenas,meu peito agoniado,uma garrafa de vinho,o cinzeiro superlotadoe esse desesperado poema.
Mortoo grito abafado do cárcere,o sonho do jovem idealistaassassinado na favela,o pensamento do pacificador.Mortoos instantes que tive de quietude,os planos de uma vida melhorda menina meretriz,o gôzo sem satisfação de ontem.Mortoo olhar de esperançadessa multidão que agoniza,o poema que falavade realizações e paz,o poeta entregueao esquecimento e descaso.Mortoo ideal de uma Pátria mais justa,o compromisso que eu tinhacom as Casas Bahia,o semblante da mãeque abortou sua cria.Morto o coletivo,o singular,morto, eu.
A guerrilha urbana está aí,trocas de tiros a esmo,tombando guerrilheirose vitimando inocentes.As desamparadascomunidades carentesvivem à mercê do descaso,do abandono,da exclusão social.Vejo a paz sitiada,lágrimas escorremdos olhos das crianças,o diabo reina absoluto.O amor pede asilo,a solidariedaderesiste firmemente,o mundovira de cabeça pra baixo.Quem pode buscalugares amenos, bucólicos,aprazíveis.A maioria se desviadas balas perdidas,todos precisam sobreviver,a vidaestá sempre por um triz.Só há um remédiopra curar essa dor coletiva:Vergonha na carae muita coragemdesses governantese estadistas FROUXOS.
Dói em mim observara sua vida que se esvainesse leitofrio e sórdido.Dói em mim constatarque não me reconhece maisque não me ouveque não dialoga mais.Dói em mim lhe versem brilho no olharcontemplar o seu corpo definhandolhe ver chorar em silêncio.Dói em mimlhe ver morrendo aos poucose nada poder fazer por você.
Por dezenas de vezescaí em tentaçãohasteei bandeirasque não deram em nada.me perdi pelos caminhos.Por dezenas de vezescuspi no prato que comiamaldiçoei a fatalidadechorei de agonia,debochei de mim mesmo.Por dezenas de vezesme revoltei contra tudofiz papel de vilãome intoxiquei de calmantesria quando não havia motivos.Por dezenas de vezesrenasci nessa vidae por centenas de outrasfui sepultado como indigente.
Poema para Magali(Escrito em Outubro, 1979)Magalientre um gole de cervejae um trago no cigarrorecorda momentos que se foram.Os seus poemascontinuam na gavetaesperando uma oportunidadepara serem publicados.Magali é irmã,confidente, mãe, mulher,ela está sempre presentequando menos esperamos por ela.Já curtimos muito juntos,não tínhamos hora marcada,andávamos sem rumo definido.Magali sonhava alto,sonhava muito,me dizia que o meu talentonão erapara ser desperdiçado no Brasil.Agoraentre um gole de cervejae um trago no cigarro,nasce esse poema sozinho,como eu,sem o auxílio de ninguém.A saudade é tamanhae a lágrima insistenterola sem pressa em meu rosto.Sonho diariamentecom a sua volta,eu precisonovamente da ALEGRIA, Magalialegria essa que a sua inesperada partidaum diada minha vida levou.
Eu quero sair por aísem hora pra voltar,mas, protegido,pela força de segurança,paga com os meus impostos.Eu quero olharno rosto das pessoasque cruzam o meu caminho.Eu quero o riso da criançafora das fortalezasque se transformaramseus condomínios.Eu quero roubara paz estampada no rostodo ancião na praça.Eu quero me abraçar com a saudadee dizer a elaque tudo que fiz foi válido.Eu quero o caminho retoe nuncapraguejar a contramãoporque por elapode vir alguém que desejo.Eu quero abraçar o meu PAIe agradecerpor todos esses anos de convívio,por ele ter sido o meu alicerce,o apoio principalquando eu mais necessitei de alguém.Eu quero o silêncio da madrugadae a mão da inspiração escrevendoos poemas que precisam ler.Eu querosentir sempre em mimtudo que vivenciei,quero a minha FILHAcoroada de êxitoem tudo que ela fizer,quero o discernimentovivendo em mim.Eu quero abraçar TODOS agoraporque depois que eu me foras homenagens póstumasnão me trarão de volta.
Poema Ditado por um AmigoEm um leito de HOSPITALDezembro, 1978.Me dê um abraçome fala de pazcoloca Janis Joplindeclama um poema seuenxuga meus olhos.Me pega pela mãonão me deixa dormiracenda um cigarroapaga a luzme faça relembrar tudo.Afasta o saudosismo de mimtatua meu corpo inteirome leva para longecanta uma canção do Lennon.Me sirvaum gole de vinhoabraça todos por mimfala de pazflores e amor.Imobiliza o tempome recoste no travesseirome beija o rostoenquanto há tempo,porque estou morrendo.
PARA UM VERDADEIRO BROTHERAmigo, trilhamos caminhos opostos,vivenciamos juntosa nossa juventude,cometemos muitas sandices,foram momentos marcantescomo nossas tatuagens.Amigo, o tempo é ingrato:Ele une e separa,faz uns rire outros chorar,nos dá bons momentose ao mesmo temponos dá amargura,saudade e dor.Amigo, nunca mais nos reencontraremos,nunca mais escreveremose cantaremos juntos,nunca mais teremosnossos longos cabelos.A minha fortaleza interiorme jogou no chão,estou aqui resistindo e só,falando muito como antes,as estradas ficaram prá trás.Amigo, quando você foi embora pra sempre,as aventuras,as "ondas", meu riso,minha autenticidade,se foram também.Quis tudo de novo, sofri.Penso em você hoje,mas lhe recordo sempre,queria muito ter Poder, mas,sou mortal também.Valeu por tudo, amigovou sobrevivendo, resistindo,bebendo uma cervejaem sua memória,lhe queria aquitocando o seu violão,ouvindo as suas piadas,queria muito, mas,não sei porque razãoDeus achou melhor calar você.POEMA ESCRITO EM 1985
À FILHA DE UMA AMIGASe soubesses o quanto sofrocom teus ressentimentoscom a tua iracom a tua fraqueza.Se soubesses que é precisoa noite se ausentarpara que o diase torne presente.Se soubesses que as barreirasforam criadaspara testar nossa coragem.Se soubesses o quanto é doloridoas ondas do mar se chocando contra os rochedos.Se soubesses a necessidadeque sintode te ver feliz.Eu, se fosse tu,faria as pazescom essa revolta passageirae chamaria a pazpara vir morardefinitivamente comigo.Bjs.
PARA IOLANDACanta, Iolandacom a voz mansada mulher que atrai,que consegue o que almeja.Se enlaça com o cantosob a chuva que cai,lavando o seu corpoda vulgaridade dos homens.Caminha como cigana,aporta em vários lugares,conquista homens sofridosque consigo sonham dormir,comercializa o seu corpo,geme pelas esquinas silenciosas,se levanta e parte de novoem busca de fanáticos sexuais.Iolanda ama todose os que a possuempor momentos limitados,os homens queremo seu coração, o seu amor,o seu carinho.Iolanda gargalhae se ausenta.Iolanda não é propriedade de ninguém,por ser ela a liberdade das esquinas,do cais,da meretriz vida.
A maior parte de mimte deseja e ama;a outra minúscula te evita.A maior parte de mimalcança o mundo em sonhos;a outra minúsculafoi proibida de se manifestar.A maior parte de mimte busca pelas ruas;a outra minúsculate quer no leito.A maior parte de mimcanta pelos cantos escuros;a outra minúsculatomou um rumo ignorado.A maior parte de mim(por causa dos problemas sociais)está morrendo aos poucos;a outra minúscula, também.
Gritemcontra o salário injustocontra a miséria que torturapelos que perderama coragem e a voz.Gritempelos desaparecidospelos que foram abandonadospela violentada liberdade.Gritemcontra às injustiças cometidaspela esperança quase mortapelos que foram abortados.Gritempelos solitários e descontentespelos poetas da rebeldiapelos órfãos de oportunidade.Gritemfaçam barulhoabandonem a omissãoa inércia.Gritempara que eu despertee tenha consciênciaque ainda estou VIVO.

LAMENTO DE UM FETO
Eu queria conhecero mundo lá fora,contemplar um amanhecercom os pássaros cantando,me desenvolvercomo qualquer criança.Eu queria penetrarno mundo externo,ouvir os adultos,saber das últimas invenções,já estou cheio dessa solidão,desse mundo escuro e vazio.Eu queria um canto de ninar,um colo de mãe, carinho,o mínimo de amor,compreensão e paz.Eu queria, mas,foi tudo em vão,minha adolescente mãepor problemas econômicosdecidiu não me querer,ela se levantou do sanitário,deu a descargae eu indefesofui esgoto abaixo.
Eu vi as "marias madalenas"correndo da políciana Av. Atlântica.Eu vi "caim" embriagadometer a mão no revolvere assassinar friamente um irmão.Eu vi "judas" caguetaruma boca-de-fumoem troca de alguns dólarese como recompensa, logo depois,perder a vida na subida do morro.Eu vi "herodes" vestido de brancoassassinando milhares de inocentesem suas "clínicas fantasmas" de aborto.Eu vi "pedro" na "hora da dura"dizer que desconhecia a muambaque estava em seu poder.Eu vi "Deus" chorando de arrependimentopor sua estúpida criação.
Eu não quero maisfalar de injustiça e dor,das desventuras que tive,dos destinos traiçoeiros,dos sonhos que não realizei,das lágrimas que rolaramsem pedir licença,dos amigos que perdi.Eu não quero maisfalar de woodstock,Janis Joplin, Hendrix,paz, amor,flores, liberdade,aventuras, acampamentos,solidariedade, protestos.Eu nunca maisfalarei do ontem vividointensamente.Até o SAUDOSISMOme pegar de novo.
Meu velho, brothergrande lutador,lutou contra o mundoe de nada adiantou,só ganhousolidão e indiferença.O tempopassa rápido demais,mas, ficam as recordações,hoje, as pessoas estão amargas,entristecidas, revoltadas,me calo diante da multidão,a vida hojeestá sempre por um triz.Meu velho, brothernão seise ainda está vivo,mas gostaria que soubesseque não estou...por dentro.
Povo em retalhos,encarcerados, intranquilos,oprimidos, calados,acuados, esquecidos.Povo enganado, esganado,pisoteado, devorado,no fundo do poço, no fosso.Mas, com esperança imorredoura,de que esse sofrimento todoterá um fim,com certeza,assim que o mundo se FINDAR.
É tanto isso e aquilo,é tanta gente xerocada,é tanta música sem conteúdo,é tanta catástrofe diária,é tanta troca-de-tiros,é tanto sequestro-relâmpago,é tanta hipocrisia na tv.É tanta pedofilia,é tanto jovemmorrendo em acidentes de carro,é tanta mãeadolescente inconsciente,é tanta omissão nesse povo,é tanta corrupção no governo,é tanto assalto na esquina,é tanta desgraça nesse mundo.Não sei como Deusainda não deu um bastaem seu mundo fora-de-controle.
Nesse dia ela falou muito,
estava realmente feliz,
abraçou os amigos,
escreveu um belo poema,
cantou no bar da esquina,
esqueceu a depressão,
as ironias do destino.
Nesse dia ela falou de amor,
do filho que não teve,
da saudade dos pais,
desse país rico e corrupto,
dos textos do Che Guevara,
da vontade
de ter sido médica,
da afilhada
que tanto amava.
No final desse dia
ela deixou
todos entristecidos,
ela deu de cara
com a morte na esquina.
MARÇO/2001

Insana essas propagandinhaseleitorais na tv,a mãe que atirouo filho no lixo,a melhoriaque nunca chega,a hipocrisia dos governantes,a musiquinha fútilque ouvi de manhã,a minha caixade mensagem superlotada.Insanoo caminho sem volta,o desejo proibido,o riso dos descontentes,o aplausodado ao prefeito babaca,o abraço do "amigo-da-onça",o lamento do burguês.Insano também é esse poema,assim como é(quase sempre)o seu autor.