sábado, 27 de fevereiro de 2010



Poema escrito em 1988.


O velho de barbas longas
caminhava só,
ele me acena, prossegue,
carregava
uma surrada mochila,
se distanciava
mais e mais,
ele era
o seu próprio mundo,
sem leis e comandantes
desfrutava a liberdade,
seus olhos eram faróis
iluminando o deserto caminho.

A poeira da estrada
levou o velho mago
de minha visão,
deu vontade de ir junto,
pensei em muitas coisas,
fui fraco,
só muitos anos depois
fui informado (pelo destino)
que o velho era a felicidade
materializada
que por muitos anos procurei.


Esse poema foi escrito
quando eu tinha 13 anos.



Mãe,
sinto saudade do seu ventre,
talvez por necessidade
do silêncio que me envolvia,
dentro de você
o vazio era imenso pra mim
e agora nada sou, perdido,
nesse grandioso planeta.

O mundo
me arrancou de você,
deixando-me desprotegido
nesse deserto de concreto e aço,
apenas com a solidão
como diária
e fiel companheira,
já não suporto
andar pelas ruas
em busca de novos sorrisos,
de novos olhares,
novos rostos.

Mãe,
eles não me compreendem,
privam minhas necessidades
de falar, sonhar,
até quando
esperarei, mãe
que parem pra me ouvir,
que me ofertem paz e flores
ao invés de notícias e imagens
de sangue, holocausto e fuzis.


Nos assaltam, esfolam,
aumentam taxas, aluguéis,
alimentos, vestuário,
custo-de-vida, e nós, nada,
permanecemos mudos.

Aumentam dívidas,
nos empobrecem
cada vez mais,
nos fazem
sofrer de agonia,
castram nossos sonhos,
amordaçam nossa voz,
e nós, nada,
permanecemos mudos.

Caçam nossos direitos,
não aceitam nossos protestos,
fazem acordos
e não nos consultam,
exportam quase tudo
e ficamos
de fora dos lucros,
colocam armadilhas
por onde passamos e sempre
estamos caindo nelas,
e nós, nada,
permanecemos mudos.

Exilam
nossos sonhos de independência,
nos ameaçam com cassetetes,
dispersam movimentos,
reuniões,
nos querem amedrontados,
fracos,
acabam conosco aos poucos,
e nós, covardes,
morremos omissos.

Poema escrito em 1997.


Eu ouvi você
balbuciar o meu nome,
em solavancos a sua cabeça
ameaçava explodir
pelas dores do acidente,
seu rosto irreconhecível
jamais abandonou
os meus pensamentos.

Naquele instante
desterrei minha vontade
de continuar existindo.

Eu ouvi a sua voz
dizer que me amava
e logo depois
seu irremediável silêncio.

A morte
não me deu tempo
de dizer
que eu também lhe amava.

A partir daí
chorei
sobre o seu corpo morto
e corri enlouquecido
pelo corredor
daquele frio hospital
pedindo
o abraço da conformação.


Eu sou
a lágrima do menor aflito
a dor do militante ferido
a paz que nunca chega
a riqueza do indigente
o sorriso sincero da gestante
a marcha dos bravos grevistas.

Eu sou
a revolta incontida do povo
a fumaça que embaça os olhos
o ébrio
que se perdeu por aí
o princípio
da metade do fim
a fúria
irrefreável do guerrilheiro
a nuvem
que impede a luz.

Eu sou
o que seus olhos
não conseguem enxergar
o que
seu coração não sente
o que
sua mão não alcança.

Eu sou
o que muitas vezes
não se encontra em mim.


PARA LENNON


Por aqui
nada mudou, poeta
a violência
cresceu assustadoramente,
a paz
com o passar dos dias
vai se distanciando
do coração dos humanos.
As baionetas diariamente
travam duelos,
os podres homens do poder
estão tentando acabar
com a espécie humana,
eles só pensam em tiros,
em violência gratuita,
em corrupção e suborno,
e a gente só queria
que dessem uma chance à PAZ.


Acendo um cigarro,
escrevo (mais) um poema,
telefono pra alguém.

Consumo
uma garrafa de vinho,
é frio o dia,
te busco,
permaneço só.

Te sinto
ouvindo Bob Dylan,
estás longe.

Nada tenho
pra lhe presentear,
apenas,
meu peito agoniado,
uma garrafa de vinho,
o cinzeiro superlotado
e esse desesperado poema.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010



Morto
o grito abafado do cárcere,
o sonho do jovem idealista
assassinado na favela,
o pensamento do pacificador.
Morto
os instantes que tive de quietude,
os planos de uma vida melhor
da menina meretriz,
o gôzo sem satisfação de ontem.

Morto
o olhar de esperança
dessa multidão que agoniza,
o poema que falava
de realizações e paz,
o poeta entregue
ao esquecimento e descaso.

Morto
o ideal de uma Pátria mais justa,
o compromisso que eu tinha
com as Casas Bahia,
o semblante da mãe
que abortou sua cria.
Morto o coletivo,
o singular,
morto, eu.


A guerrilha urbana está aí,
trocas de tiros a esmo,
tombando guerrilheiros
e vitimando inocentes.
As desamparadas
comunidades carentes
vivem à mercê do descaso,
do abandono,
da exclusão social.

Vejo a paz sitiada,
lágrimas escorrem
dos olhos das crianças,
o diabo reina absoluto.
O amor pede asilo,
a solidariedade
resiste firmemente,
o mundo
vira de cabeça pra baixo.

Quem pode busca
lugares amenos, bucólicos,
aprazíveis.
A maioria se desvia
das balas perdidas,
todos precisam sobreviver,
a vida
está sempre por um triz.

Só há um remédio
pra curar essa dor coletiva:
Vergonha na cara
e muita coragem
desses governantes
e estadistas FROUXOS.


Dói em mim observar
a sua vida que se esvai
nesse leito
frio e sórdido.

Dói em mim constatar
que não me reconhece mais
que não me ouve
que não dialoga mais.

Dói em mim lhe ver
sem brilho no olhar
contemplar
o seu corpo definhando
lhe ver chorar em silêncio.

Dói em mim
lhe ver morrendo aos poucos
e nada poder fazer por você.


Por dezenas de vezes
caí em tentação
hasteei bandeiras
que não deram em nada.
me perdi pelos caminhos.

Por dezenas de vezes
cuspi no prato que comi
amaldiçoei a fatalidade
chorei de agonia,
debochei de mim mesmo.

Por dezenas de vezes
me revoltei contra tudo
fiz papel de vilão
me intoxiquei de calmantes
ria quando não havia motivos.

Por dezenas de vezes
renasci nessa vida
e por centenas de outras
fui sepultado como indigente.


Poema para Magali

(Escrito em Outubro, 1979)


Magali
entre um gole de cerveja
e um trago no cigarro
recorda momentos que se foram.
Os seus poemas
continuam na gaveta
esperando uma oportunidade
para serem publicados.
Magali é irmã,
confidente, mãe, mulher,
ela está sempre presente
quando menos esperamos por ela.
Já curtimos muito juntos,
não tínhamos hora marcada,
andávamos sem rumo definido.
Magali sonhava alto,
sonhava muito,
me dizia que o meu talento
não era
para ser desperdiçado no Brasil.
Agora
entre um gole de cerveja
e um trago no cigarro,
nasce esse poema sozinho,
como eu,
sem o auxílio de ninguém.
A saudade é tamanha
e a lágrima insistente
rola sem pressa em meu rosto.
Sonho diariamente
com a sua volta,
eu preciso
novamente da ALEGRIA, Magali
alegria essa
que a sua inesperada partida
um dia
da minha vida levou.



Eu quero sair por aí
sem hora pra voltar,
mas, protegido,
pela força de segurança,
paga com os meus impostos.
Eu quero olhar
no rosto das pessoas
que cruzam o meu caminho.
Eu quero o riso da criança
fora das fortalezas
que se transformaram
seus condomínios.
Eu quero roubar
a paz estampada no rosto
do ancião na praça.
Eu quero me abraçar
com a saudade
e dizer a ela
que tudo que fiz foi válido.
Eu quero o caminho reto
e nunca
praguejar a contramão
porque por ela
pode vir alguém que desejo.
Eu quero abraçar o meu PAI
e agradecer
por todos esses anos de convívio,
por ele ter sido o meu alicerce,
o apoio principal
quando eu mais necessitei de alguém.
Eu quero o silêncio da madrugada
e a mão da inspiração escrevendo
os poemas que precisam ler.
Eu quero
sentir sempre em mim
tudo que vivenciei,
quero a minha FILHA
coroada de êxito
em tudo que ela fizer,
quero o discernimento
vivendo em mim.
Eu quero abraçar TODOS agora
porque depois que eu me for
as homenagens póstumas
não me trarão de volta.


Poema Ditado por um Amigo
Em um leito de HOSPITAL
Dezembro, 1978.


Me dê um abraço
me fala de paz
coloca Janis Joplin
declama um poema seu
enxuga meus olhos.

Me pega pela mão
não me deixa dormir
acenda um cigarro
apaga a luz
me faça relembrar tudo.

Afasta
o saudosismo de mim
tatua meu corpo inteiro
me leva para longe
canta uma canção do Lennon.

Me sirva
um gole de vinho
abraça todos por mim
fala de paz
flores e amor.

Imobiliza o tempo
me recoste no travesseiro
me beija o rosto
enquanto há tempo,
porque estou morrendo.


PARA UM VERDADEIRO BROTHER


Amigo, trilhamos caminhos opostos,
vivenciamos juntos
a nossa juventude,
cometemos muitas sandices,
foram momentos marcantes
como nossas tatuagens.
Amigo, o tempo é ingrato:
Ele une e separa,
faz uns rir
e outros chorar,
nos dá bons momentos
e ao mesmo tempo
nos dá amargura,
saudade e dor.

Amigo, nunca mais nos reencontraremos,
nunca mais escreveremos
e cantaremos juntos,
nunca mais teremos
nossos longos cabelos.
A minha fortaleza interior
me jogou no chão,
estou aqui resistindo e só,
falando muito como antes,
as estradas ficaram prá trás.

Amigo, quando você
foi embora pra sempre,
as aventuras,
as "ondas", meu riso,
minha autenticidade,
se foram também.
Quis tudo de novo, sofri.
Penso em você hoje,
mas lhe recordo sempre,
queria muito ter Poder, mas,
sou mortal também.

Valeu por tudo, amigo
vou sobrevivendo, resistindo,
bebendo uma cerveja
em sua memória,
lhe queria aqui
tocando o seu violão,
ouvindo as suas piadas,
queria muito, mas,
não sei porque razão
Deus achou melhor calar você.


POEMA ESCRITO EM 1985


À FILHA DE UMA AMIGA

Se soubesses o quanto sofro
com teus ressentimentos
com a tua ira
com a tua fraqueza.
Se soubesses que é preciso
a noite se ausentar
para que o dia
se torne presente.
Se soubesses que as barreiras
foram criadas
para testar nossa coragem.
Se soubesses
o quanto é dolorido
as ondas do mar
se chocando contra os rochedos.
Se soubesses a necessidade
que sinto
de te ver feliz.
Eu, se fosse tu,
faria as pazes
com essa revolta passageira
e chamaria a paz
para vir morar
definitivamente comigo.

Bjs.


PARA IOLANDA


Canta, Iolanda
com a voz mansa
da mulher que atrai,
que consegue o que almeja.
Se enlaça com o canto
sob a chuva que cai,
lavando o seu corpo
da vulgaridade dos homens.
Caminha como cigana,
aporta em vários lugares,
conquista homens sofridos
que consigo sonham dormir,
comercializa o seu corpo,
geme pelas esquinas silenciosas,
se levanta e parte de novo
em busca de fanáticos sexuais.
Iolanda ama todos
e os que a possuem
por momentos limitados,
os homens querem
o seu coração, o seu amor,
o seu carinho.
Iolanda gargalha
e se ausenta.
Iolanda
não é propriedade de ninguém,
por ser ela
a liberdade das esquinas,
do cais,
da meretriz vida.


A maior parte de mim
te deseja e ama;
a outra minúscula te evita.
A maior parte de mim
alcança o mundo em sonhos;
a outra minúscula
foi proibida de se manifestar.
A maior parte de mim
te busca pelas ruas;
a outra minúscula
te quer no leito.
A maior parte de mim
canta pelos cantos escuros;
a outra minúscula
tomou um rumo ignorado.
A maior parte de mim
(por causa dos problemas sociais)
está morrendo aos poucos;
a outra minúscula, também.


Gritem
contra o salário injusto
contra a miséria que tortura
pelos que perderam
a coragem e a voz.
Gritem
pelos desaparecidos
pelos que foram abandonados
pela violentada liberdade.
Gritem
contra às injustiças cometidas
pela esperança quase morta
pelos que foram abortados.
Gritem
pelos solitários e descontentes
pelos poetas da rebeldia
pelos órfãos de oportunidade.
Gritem
façam barulho
abandonem a omissão
a inércia.
Gritem
para que eu desperte
e tenha consciência
que ainda estou VIVO.



LAMENTO DE UM FETO


Eu queria conhecer
o mundo lá fora,
contemplar um amanhecer
com os pássaros cantando,
me desenvolver
como qualquer criança.
Eu queria penetrar
no mundo externo,
ouvir os adultos,
saber das últimas invenções,
já estou cheio dessa solidão,
desse mundo escuro e vazio.
Eu queria
um canto de ninar,
um colo de mãe, carinho,
o mínimo de amor,
compreensão e paz.
Eu queria, mas,
foi tudo em vão,
minha adolescente mãe
por problemas econômicos
decidiu não me querer,
ela se levantou do sanitário,
deu a descarga
e eu indefeso
fui esgoto abaixo.


Eu vi as "marias madalenas"
correndo da polícia
na Av. Atlântica.
Eu vi "caim" embriagado
meter a mão no revolver
e assassinar friamente um irmão.
Eu vi "judas" caguetar
uma boca-de-fumo
em troca de alguns dólares
e como recompensa, logo depois,
perder a vida na subida do morro.
Eu vi "herodes" vestido de branco
assassinando milhares de inocentes
em suas "clínicas fantasmas" de aborto.
Eu vi "pedro" na "hora da dura"
dizer que desconhecia a muamba
que estava em seu poder.
Eu vi "Deus" chorando de arrependimento
por sua estúpida criação.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010



Eu não quero mais
falar de injustiça e dor,
das desventuras que tive,
dos destinos traiçoeiros,
dos sonhos que não realizei,
das lágrimas que rolaram
sem pedir licença,
dos amigos que perdi.
Eu não quero mais
falar de woodstock,
Janis Joplin, Hendrix,
paz, amor,
flores, liberdade,
aventuras, acampamentos,
solidariedade, protestos.
Eu nunca mais
falarei do ontem vivido
intensamente.
Até o SAUDOSISMO
me pegar de novo.

Meu velho, brother
grande lutador,
lutou contra o mundo
e de nada adiantou,
só ganhou
solidão e indiferença.
O tempo
passa rápido demais,
mas, ficam as recordações,
hoje, as pessoas estão amargas,
entristecidas, revoltadas,
me calo diante da multidão,
a vida hoje
está sempre por um triz.
Meu velho, brother
não sei
se ainda está vivo,
mas gostaria que soubesse
que não estou...
por dentro.


Povo em retalhos,
encarcerados, intranquilos,
oprimidos, calados,
acuados, esquecidos.
Povo enganado, esganado,
pisoteado, devorado,
no fundo do poço, no fosso.
Mas, com esperança imorredoura,
de que esse sofrimento todo
terá um fim,
com certeza,
assim que o mundo se FINDAR.


É tanto isso e aquilo,
é tanta gente xerocada,
é tanta música sem conteúdo,
é tanta catástrofe diária,
é tanta troca-de-tiros,
é tanto sequestro-relâmpago,
é tanta hipocrisia na tv.
É tanta pedofilia,
é tanto jovem
morrendo em acidentes de carro,
é tanta mãe
adolescente inconsciente,
é tanta omissão nesse povo,
é tanta
corrupção no governo,
é tanto assalto na esquina,
é tanta desgraça nesse mundo.
Não sei como Deus
ainda não deu um basta
em seu mundo fora-de-controle.


Nesse dia ela falou muito,
estava realmente feliz,
abraçou os amigos,
escreveu um belo poema,
cantou no bar da esquina,
esqueceu a depressão,
as ironias do destino.

Nesse dia ela falou de amor,
do filho que não teve,
da saudade dos pais,
desse país rico e corrupto,
dos textos do Che Guevara,
da vontade
de ter sido médica,
da afilhada
que tanto amava.

No final desse dia
ela deixou
todos entristecidos,
ela deu de cara
com a morte na esquina.

MARÇO/2001



Insana essas propagandinhas
eleitorais na tv,
a mãe que atirou
o filho no lixo,
a melhoria
que nunca chega,
a hipocrisia dos governantes,
a musiquinha fútil
que ouvi de manhã,
a minha caixa
de mensagem superlotada.
Insano
o caminho sem volta,
o desejo proibido,
o riso dos descontentes,
o aplauso
dado ao prefeito babaca,
o abraço do "amigo-da-onça",
o lamento do burguês.
Insano também é esse poema,
assim como é
(quase sempre)
o seu autor.